Com direção de Cesar Augusto e texto de Gustavo Pinheiro, o espetáculo “ALAIR”, com Edwin Luisi entra na segunda temporada no Teatro Ipanema e homenageia o fotógrafo Alair Gomes no ano em que se completam 25 anos de sua morte.
Engenheiro, filósofo, escritor, estudioso e crítico de arte, ele foi reconhecido como precursor da fotografia homoerótica no Brasil, conquistando a consagração internacional com seu trabalho cujo tema central era a beleza do corpo masculino.

Você comemora 45 anos de carreira com um evento importante: contar a vida do fotógrafo Alair Gomes, um precursor na arte homoerótica no Brasil. Fale um pouco do processo de montagem do espetáculo, como foi a relação com o diretor e com o dramaturgo, a transcendência desse texto nos dia atuais e o que você espera desta nova temporada?

É sempre bom comemorar uma data da carreira com espetáculos que possam marcar a nossa história. No começo de 2017, fiz uma leitura de “Alair”, achando que estava ajudando um grupo de colegas a ouvir o texto pela boca de um ator. Quando percebi, eles estavam me convidando a fazer a peça. Fiquei muito feliz! Eu tive que me dividir entre os ensaios de “Alair” e a montagem de outro espetáculo que estava viajando o país. Mas foi uma experiência extremamente benéfica na minha vida. É um texto lindo do Gustavo Pinheiro, numa montagem primorosa dirigida pelo Cesar Augusto. Eu já conhecia o Cesar de muitos trabalhos e sempre o admirei. Gosto de fazer teatro com inquietações do mundo moderno. E o texto é primoroso, todo mundo se encanta quando assiste à peça. “Alair” é um trabalho fácil sob o ponto de vista da convivência das pessoas e difícil do ponto de vista artístico, na medida em que tive muito texto para decorar. Estreamos no Rio em março, com uma casa festiva, as pessoas amaram a peça, ela fez uma carreira linda no Rio, uma bela temporada em São Paulo e agora veio o convite do Teatro Ipanema para uma segunda temporada de verão, em janeiro e fevereiro. É uma peça que conta uma vida atribulada emocionalmente, mas com humor. Alair Gomes morreu em 1992, mas a peça é tratada pelo Gustavo Pinheiro de uma forma extremamente moderna e contemporânea, porque contamos três momentos da vida do Alair: o começo de sua vida sentimental, quando ele se apaixona por um jovem nos anos 50; relatos de uma grande viagem que Alair faz pela Europa nos anos 80, falando sobre as pessoas e lugares que conheceu, e o último amor da vida dele, já nos anos 90. Esses três momentos se misturam e tudo é conduzido com tanta maestria que a plateia entende perfeitamente essa costura que o Gustavo faz. É uma peça para quem gosta de assistir uma obra de arte, para quem gosta de um texto moderno, sobre um personagem que existiu e que precisa ser mais conhecido no Brasil.

Falar de homoerotismo hoje no Brasil ainda causa desconforto em algumas parcelas mais conservadoras da população? Ainda há um estigma? Digo isso porque recentemente o Luís Lobianco recebeu inúmeros elogios por seu espetáculo Gisberta, mas foi devidamente ignorado pelos jurados dos concursos teatrais, que não o indicaram a nenhuma categoria importante.

Infelizmente, o teatro foi ficando cada vez mais relegado a público selecionado. “Alair” não é musical e nem comercial, portanto, quem vai nos assistir é um publico mais atento, aberto. Tivemos na plateia gays, que foram assistir a história de um ícone gay, mas também tivemos muitas pessoas com outras orientações sexuais que não ficaram nem um pouco desconfortáveis. Nossa peça fala de coisas sérias com elegância. Não há estranhamento quando se fala de amor. Não acho que falar de erotismo cause desconforto. Acho que há um grupo de pessoas preconceituosas, mas essas não vão ao teatro. Sobre prêmios, não posso me queixar porque já recebi vários. Mas sempre haverá injustiças. Passei o ano em cartaz e não consegui ver “Gisberta”, mas a não indicação do espetáculo deve ter sido um erro de avaliação, como há vários outros erros. Há muita gente embolorada e mumificada por aí escrevendo sobre teatro, que talvez não tenha uma ligação com o teatro mais moderno e contemporâneo. São pessoas do passado que se interessam apenas por esse teatro feito no passado. Na outra ponta, há vários blogs na internet sobre teatro feitos por pessoas jovens e extremamente interessadas e abertas.

No caso, não é só o Alair que foi precursor na arte homoerótica. Há 45 anos, você também entrou de sola, estreando o polêmico espetáculo Ensaio Selvagem, onde já encarnava um andrógino, com direito a vestido deslumbrante, saltos altos e tudo que tinha direito. Se hoje as coisas estão desse jeito, como era naquela época? Melhor ou pior?

Entre “Ensaio Selvagem” e “Alair” se passaram 40 anos. Quando montamos “Ensaio Selvagem”, era o começo da androginia. Então ela foi vista com curiosidade. Não tinha ainda a luta pelos direitos ou afirmação gay. Era a época do David Bowie, do Ney Matogrosso, do rastro de “Hair”. “Ensaio Selvagem” era vista como curiosidade, não havia uma defesa sexual na história. Era apenas um homem que fazia o papel de uma atriz que tinha passado por uma lobotomia por uma companhia de teatro inglesa que vivia dentro de um trem. Então essa mulher que eu fazia tinha o temperamento masculino. Era uma coisa deliciosamente louca do Zé Vicente. Com essa peça eu ganhei o meu primeiro prêmio, o Zé Wilker fez no Rio e também ganhou prêmio. “Ensaio Selvagem” não defendia nenhum tipo de tese, ela apenas mostrava a androginia, um movimento que estava surgindo na época e ninguém sabia o que era. Só alguns anos depois fomos entender que o que estávamos fazendo era pioneiro. Nesses 40 anos, é impressionante que os homossexuais, bissexuais, transgêneros ainda tenham que lutar para se afirmarem. Há uma luta política aí. Mas acho que já se avançou muito. E o teatro é justamente isso: uma arena para discutir as questões da humanidade.

Depois de Eu sou minha própria mulher, Freud no distante país da alma e Amadeus, que te renderam vários prêmios como melhor ator pelo país afora, qual outro personagem famoso está nos teus planos. O que te encanta e continua encalacrado no teu íntimo como um projeto ainda não realizado?

Tive o privilégio e a sorte de ter vivido grandes personagens no teatro. Alguns realmente existiram, como Freud, Mozart, Charlotte von Mahlsdorf e agora o Alair Gomes. Claro que eu já sonhei com vários personagens quando era mais jovem. Mas eu aprendi com o tempo que é melhor deixar a vida me levar. Não quero ter grandes projetos fixos na cabeça. Quero grandes projetos que me apareçam, que me cheguem às mãos ou que eu descubra. Eu prefiro que me chegue às mãos um teatro mais inquieto ou inquietante no mundo atual. Eu já fiz Sófocles, Shakespeare, Tennessee Williams, Ibsen, Goldoni, eu fiz vários autores consagrados. Mas eu prefiro fazer teatro mais contemporâneo, dos dias atuais. Eu sou aquariano, sempre olho para o futuro. Gostaria que me chegassem textos que falassem sobre o mundo atual, da forma atual, com uma linguagem mais artística. É isso que me agrada. Pode ser um teatro que não dá tanto dinheiro, mas dá muito mais prazer. Não tenho personagens escondidos no meu íntimo não. Ao invés de fazer Rei Lear, prefiro fazer um velho extremamente louco ou  moderno. A vida do Zé Celso, já pensou? Seria bárbaro!

Na tua opinião, como anda o clima do teatro brasileiro? Ausência de editais, grandes produtores monopolizando o mercado e usando a Lei Rouanet de maneira pouco ética, a fuga do público das salas de espetáculo etc.. Qual a diferença em relação a quando você começou, em 1962?

Acho importante deixar claro que eu não sou produtor de teatro. Eu não entendo de leis e editais. Eu empresto meu corpo e minha voz para criar um personagem, essa é a minha praia. E às vezes em que eu produzi, foi com meu próprio dinheiro. Foi mais simples e mais fácil do que ficar mendigando por aí. Todo mundo sabe que muitas cartas são marcadas, quem leva grande parte do dinheiro são as pessoas que já têm contato há muito tempo com as empresas doadoras via renúncia fiscal, todo mundo sabe que os musicais recebem boa parte do dinheiro e o teatro que eu normalmente faço, há muitos anos, é feito sem dinheiro. Está difícil para nós todos. Desde que eu comecei no teatro eu ouço a frase: “O teatro está atravessando uma época muito complicada”. Mas nunca chegamos ao ponto que chegamos agora. Quem faz teatro precisa entender que o faz para o público. A meia entrada generalizada também é uma questão. A falta de espaço nas mídias tradicionais, como jornais, é outro ponto relevante. A violência nas ruas assusta os espectadores. O Plínio Marcos tem uma frase que sempre repito: “O teatro só não morre porque não tem onde cair morto”. Mas o principal mesmo é a falta de incentivo à cultura. A verba destinada pelo governo é ínfima e ainda precisa ser dividida por todas as artes. O empresariado está retraído, o público está retraído, e a gente vai tocando. É preciso lutar. Existem vários grupos e setores mobilizados para discutir as questões do teatro e a evasão de público. Mas o que falta mesmo é estrutura cultural no país. Se você vai à Argentina, aqui ao nosso lado, os teatros estão abarrotados. É um país que dá enorme importância à cultura e à educação e o Brasil está longe disso tudo. Estamos num momento de impasse muito grande, com muita tristeza. Mas somos resistentes, fazemos teatro de resistência e vamos sair dessa situação.

Como está teu relacionamento com a mídia? Amigável, de confronto ou resignado?

Eu sou um ator de uma carreira longa, recebi muitos prêmios, acho que tenho uma respeitabilidade – se não pela minha carreira, pela minha idade. Acho que há uma certa reverência pela minha contribuição ao teatro. Meu contato com a mídia de teatro, sobretudo, é muito boa. Mas “resignado” é uma palavra que eu não conheço na minha vida. Não sou resignado a nada. Sou até rebelde de temperamento. Se eu me sentir resignado, algum coisa está errada. Eu sou de lutar, e muito, com as coisas que eu não concordo.

Por que você acha que o fotógrafo americano Robert Mapplethorpe é mais festejado no Brasil do que o Alair Gomes? Ainda impera o nosso complexo de vira-lata?

Nós estamos habituados a consumir, há muitos anos, a cultura americana. A gente está praticamente falando inglês. A gente importa a música americana nas rádios, o cinema americano está na quase totalidade das salas. O brasileiro sonha em ir para Miami, Orlando e Nova York, fazer muitas compras, trazer coisas americanas. Vai no rastro disso tudo o fato de Robert Mapplethorpe ser mais conhecido que Alair Gomes. Mas, por outro lado, Alair foi um homem muito discreto. Ele não procurou expor sua arte. Quando morreu, ficou mais conhecido, mas ainda tem visibilidade pequena no Brasil. Isso é falta de interesse dos museus, das galerias em mostrar seus trabalhos. E aí está a graça em fazermos “Alair”. A gente está fazendo com que cada plateia que saia do teatro conheça e multiplique o nome do Alair Gomes e seu trabalho. Ele é insuperável na arte homoerótica, festejado no mundo todo. Mas tenho certeza que o Alair ainda vai ser muito consagrado, ao menos se depender da nossa peça.

Numa entrevista ao Simon Khoury de 2001, você disse que foi mal acostumado no teatro. A partir do teu segundo espetáculo, foi sempre convidado a fazer o papel principal, fosse protagonista ou antagonista. Isso atuou no teu ego de que maneira?

É sempre complicado falar de si mesmo, se auto elogiar por uma razão ou outra. Mas acontece que eu sou um bom ator. Quando surgi, na EAD, já tive uma carreira exemplar lá dentro da escola. Pode soar antipático falar isso, mas eu já tinha talento. Eu me diferenciei dos demais alunos e atores, tanto que ganhei o prêmio de melhor ator revelação já no meu primeiro trabalho. E acho que tenho um biotipo que faltava no teatro, bom para peças americanas, inglesas, italianas. Eu não tinha uma cara tão brasileira. Ao contrário do cinema, onde só se faziam filmes passados no Nordeste ou na favela e nunca tinha papel pra mim. Então no teatro eu tive a sorte de somar esforço, talento, um bom tipo físico. Não sei se isso massageia o meu ego. Talvez sim. Mas reconheço meu esforço. Eu abri mão de muita coisa na minha vida para crescer como ator. Tudo que eu fiz na vida, absolutamente tudo, eu fiz pensando em crescer como ator. E acabei fazendo papeis muito bons.

O que você acha do trabalho da Star Palco?

Acho fenomenal. Qualquer veículo que divulgue nosso trabalho, que prestigie nossa arte, nos ajuda muito. Sou fã há muitos anos! É um trabalho que nos comove. Agradeço de coração ao pessoal da Star Palco.